A fábula: Fedro - PT

Fedro

A FÁBULA: FEDRO

Caio Júlio Fedro (ou Feder) era um trácio de formação grega, liberto de Augusto, que viveu talvez durante o reinado de Nero. Escreveu 123 fábulas (em 5 livros) imitando Esopo, mas em versos (senários jâmbicos), com um tom escrupuloso de homem de letras. [...]

Algumas alusões de sua obra lhe trouxeram a vingança de Sejano, favorito de Tibério: continham certamente a complacência da sátira e uma queixa cheia de dor contra os poderosos, contra os invejosos, que mal dissimula sob a forma do apólogo. Tende a conseguir uma elegância pura e concisa. Muito distante da fluidez de Horácio, da sensibilidade, da riqueza lírica e do gênio expressivo de La Fontaine, foi, no entanto, o primeiro a demonstrar que a fábula é capaz de expressar os mais variados tons, desde o epigrama ou a anedota contemporânea até o drama e a reflexão moral.

Fonte: BAYET, Jean. Literatura latina. Barcelona: Ariel, 1981. p. 332-333.

Por escrito - PT

Tabuletas

POR ESCRITO

Falavam-se dezenas de línguas no Império romano, mas o latim, a oeste, e o grego, a leste, eram as línguas da comunicação internacional, oral e escrita, do governo e do comércio. Os romanos introduziram a escrita na Europa do norte, onde ainda se usa o alfabeto latino. Havia apenas 22 letras no alfabeto (o I e o J não se distinguiam, nem o U e o V; o W e o Y não existiam). Escreveram-se milhares de textos, desde grandes inscrições em pedra até cartas pessoais rabiscadas em tabuletas de cera; desde elegantes poemas e histórias cuidadosamente escritas com tinta em pergaminhos de papiro até cálculos feitos em desgastadas folhas. Os poucos textos que se conservam são muitos valiosos porque contêm informações que as ruínas e as desgastadas folhas não conservaram; a escrita é a única maneira como os romanos podem “nos falar” a respeito deles e de seu mundo, de sua política, do que pensavam e no que acreditavam. Mas, apesar da importância da escrita, a maioria das pessoas era analfabeta devido à falta de instrução e porque, num mundo sem imprensa, os livros tinham de ser copiados manualmente, e por isso eram escassos e caros.

Fonte: JAMES, Simon. Roma antigua. Londres: Dorling Kindersley, 2002. p. 40.

Depravação à romana - PT

Pintura em Pompeia

DEPRAVAÇÃO À ROMANA

Segundo John R. Clarke, catedrático de História da Arte da Universidade do Texas, para os antigos romanos o sexo era um presente dos deuses e uma graça concedida por Vênus, desfrutar dele não representava imoralidade alguma. Talvez por isso, em muitos lares romanos se exibiam todo tipo de objetos, desde esculturas até vasilhas, que mostravam um enorme repertório sexual sem nenhum pudor, ao ponto de que hoje poderiam ser consideradas representações pornográficas.

Curiosamente, nesta sociedade aparentemente tolerante quanto ao sexo, na qual as relações homossexuais entre os homens e com escravas adolescentes não eram mal vistas, algumas práticas, como o lesbianismo e o sexo grupal e oral, eram objeto de marginalização. Desde logo, isso seguramente as estimulava, mas o caso é que um cidadão surpreendido a praticar um cunnilingus era proibido de votar e, do ponto de vista social, ficava reduzido ao mesmo status de gladiadores, prostitutas e artistas.

Fonte: ALONSO, A.; OTERO, L. 10 vividores de la historia. Muy historia, Madri, n. 25, p. 52, set. 2009.

Mais que tática, tato - PT

Pompeu Magno

MAIS QUE TÁTICA, TATO

Os sucessos e fracassos de César e Pompeu dependeram também de um fator psicológico: o trato que deram a seus homens.

César, o hábil

Todos os autores coincidem em assinalar que César foi, antes de tudo, um magnífico condutor de homens. Mais do que um militar genial, foi alguém que soube eletrizar seus soldados com sua valentia e, sobretudo, compartilhando com eles todo tipo de fadigas e penalidades. Era duro, porém, justo e generoso, e não pedia nada que ele mesmo não fosse capaz de fazer. O resultado foi que seus legionários confiavam nele totalmente. Outra virtude inata era sua rapidez de ação, o que costumava surpreender seus inimigos. Não vacilava, o que dava a seus homens uma fé cega em suas possibilidades. Esse vínculo psicológico com seus homens foi um fator determinante em suas vitórias e compensava as carências que pudesse ter em outros âmbitos.

Pompeu, o altivo

Pompeu havia sido um excelente militar; no entanto, mais velho, as maquinações políticas o tinham subjugado. Diferentemente de seu inimigo, Pompeu foi manipulado pelo Senado, o que diluiu sua autoridade. Sua asma o debilitou fisicamente, e sua prudência se mostrou excessiva. Por outro lado, sua capacidade de liderança era mínima, assim como a confiança em suas tropas. Nunca compartilhou os reveses com seus legionários, o que, junto com a dureza com que os tratava, não gerava apoio. Diante dos soldados simples, Pompeu representava valores distantes, os dos ricos e decadentes senadores, aos quais era difícil se entregar. Isso explica como, apesar da sua superioridade numérica, acabou perdendo a guerra contra César.

Fonte: CARLOS LOSADA, Juan. La lucha contra Pompeyo. Historia y vida, Barcelona, n. 492, p. 46, mar. 2009.

Mecenas, o amigo de Augusto e dos poetas - PT

Mecenas

MECENAS, O AMIGO DE AUGUSTO E DOS POETAS

Graças à sua amizade com Augusto, Caio Mecenas se transformou em um dos homens mais poderosos de Roma e acumulou uma grande fortuna com a qual patrocinou os escritores de sua época.

Por Juan Luis Posadas. Universidade Nebrija (Madri). História NG, n.º 126.

“Pessoa que patrocina as artes e as letras”, assim define o Dicionário da Academia Real Espanhola (RAE) o termo “mecenas”, referindo-se aos indivíduos que dedicam parte de suas riquezas ao financiamento de obras culturais diversas, seja um museu ou uma ópera, seja um prêmio artístico ou literário. O vocábulo provém, como também indica o Dicionário da RAE, de um personagem da história romana que patrocinou, com suas riquezas e sua influência, os grandes literatos da Roma daquele tempo, como Horácio, Virgílio ou Propércio. Sem sua ajuda, é possível que alguns dos mais belos versos da literatura universal não tivessem vindo à luz. Mas o primeiro Mecenas da história não foi só um protetor das artes. Amigo e conselheiro de Augusto, foi um dos homens mais poderosos do governo do primeiro imperador de Roma.

A serviço de Otávio

Caio Mecenas nasceu provavelmente em Arretium (Arezzo), uma localidade etrusca do centro da Itália. Dizia-se que tinha sangue real, como descendente dos monarcas etruscos da cidade, por meio da família de sua mãe, os Cílnios. Horácio, por isso, o chamava “Mecenas, nascido dos reis antigos, minha doce fortaleza e honra”. No entanto, Mecenas sempre pertenceu à ordem dos cavaleiros, inferior a dos senadores, e nunca quis se incorporar ao Senado, algo que havia estado ao seu alcance em qualquer momento, graças à sua estreita relação com Otávio.

Embora fosse alguns anos mais velho, Mecenas foi um amigo de primeira hora de Otávio, sobrinho de Júlio César. Quando da morte deste, em 44 a.C., Mecenas se uniu imediatamente à luta de Otávio para tomar o poder. Durante o triunvirato que Otávio constituiu com Marco Antônio e Lépido (43-33 a.C.), Mecenas realizou importantes ações diplomáticas a serviço de seu amigo. Em 40 a.C., empreendeu o matrimônio de Otávio com Escribônia, parente de Sexto Pompeu (filho de Pompeu Magno), com a intenção de solidificar uma aliança entre Otávio e o almirante republicano, evitando assim uma guerra civil com este e lhe dando vantagem sobre os outros triúnviros.

O matrimônio, desde logo, não foi feliz, mas deu a Otávio sua única descendência, Júlia, cujos netos e bisnetos governariam o império durante o século seguinte. Três anos mais tarde, foi a Tarento como enviado pessoal de Otávio e ali subscreveu um tratado no qual se acordava uma nova divisão das áreas de influência entre Otávio e Marco Antônio, o que deixou Lépido praticamente fora da disputa pelo poder.

Em 36 a.C., a paz com Sexto Pompeu fracassou, e Otávio dirigiu-se à Sicília para combatê-lo. Mecenas permaneceu em Roma investido do máximo poder na cidade e na Itália. Também participou como braço direito de Otávio na campanha militar que culminaria na batalha de Ácio, que representou a vitória definitiva sobre Marco Antônio. Depois do embate, Mecenas perseguiu de forma implacável os opositores do novo homem forte de Roma. No ano de 30 a.C., por exemplo, sufocou rapidamente uma conspiração para assassinar Augusto, fazendo com que se suicidasse seu líder – Lépido, o Jovem (filho do antigo triúnviro), e sua esposa.

O perfeito sibarita

As ocupações políticas, entretanto, nunca absorveram totalmente Mecenas. Muito pelo contrário, o influente ministro de Augusto era conhecido entre os seus contemporâneos por seu estilo de vida perdulário e sua inclinação ilimitada pelos prazeres e refinamentos. De fato, muitos consideravam esses gostos como um sinal de delicadeza e afeminação, dizendo que podia “superar uma mulher em sua dedicação à indolência e ao luxo”.

Chamava a atenção seu modo de vestir, sua maneira de prender a túnica acima dos joelhos, deixando-a pender até os calcanhares, como as anáguas de uma mulher; ou o hábito que tinha de manter a cabeça coberta com um manto, ou pallium, quando presidia um tribunal. Essa suposta afetação transparecia no estilo pesado dos poemas que compôs, dos quais se conservam alguns fragmentos. Por isso, o próprio Otávio zombou dele em uma carta transmitida por Macróbio, na qual o chamava “ébano de Medúlia, marfim da Etrúria, funcho de Arretium, diamante do Adriático, pérola do Tibre, esmeralda da Cílnia, jaspe de Iguvium, berilo de Persenna, granada da Itália”, fazendo alusão, dessa forma, aos gosto de Mecenas por pedras preciosas.

Imensamente rico, Mecenas construiu uma grande residência no monte Esquilino, rodeada pelos célebres Jardins de Mecenas, dos quais hoje se conservam ainda alguns restos, embora, de forma alguma, deem uma ideia do esplendor dessa propriedade, que depois passaria a ser a residência de Tibério, o sucessor de Augusto, após a volta do exílio em Rodes. Lá Mecenas celebrava esplêndidos banquetes com refinados manjares que pôs em moda em Roma, como a carne de macacos jovens. Dizia-se que Mecenas gostava de adormecer ao som de música tocada por músicos escondidos entre as cercas de plantas de sua residência. Era, em suma, um autêntico sibarita, em forte contraste com o caráter do outro principal conselheiro de Augusto, seu genro Marco Agripa, homem de caráter mais simples e com vocação militar, embora também tenha sido um notável colecionador de arte.

Amante da música, do teatro – em particular dos mimos – e também da poesia. Mecenas se cercou dos principais escritores de Roma, como Virgílio, Horácio e Propércio. Sem dúvida, isso se devia à sua própria sensibilidade literária, mas também havia outras razões. Mecenas havia se dado conta de que um simples poeta como Catulo tinha prejudicado seriamente a imagem de Júlio César com acusações maliciosas, como a de ser amante de um tal Mamurra, um de seus oficiais de intendência. Para impedir que Otávio sofresse os mesmos ataques, Mecenas decidiu atrair os poetas mais destacados de sua geração e convencê-los de louvar o fundador do Império.

Um patrão pouco exigente

Alguns, às vezes, resistiam a desempenhar o papel de poeta oficial, como Horácio, que em uma ode se queixava de que sua poesia era amorosa, e não laudatória de Otávio: “A musa quer que eu celebre os doces cantos de minha ama Licínia...” Virgílio, ao contrário, se mostrou mais disposto a desempenhar esse papel; sua Eneida foi planejada como um poema laudativo dos antepassados de Augusto, como uma “premonição” da obra deste como fundador e pacificador do Império. Para atrair todos esses poetas, Mecenas organizava irresistíveis banquetes e orgias, e lhes oferecia influência, dinheiro e favores. Isso não significa que os literatos se deixaram corromper facilmente; Horácio, por exemplo, aceitou uma modesta fazenda na região da Sabina, mas em seus poemas declara que não aceitou prebendas ou cargos públicos, nem encargos de cantar as glórias de Augusto. Quanto a Virgílio e Propércio, não se pode dizer que elogiaram excessivamente o novo imperador.

Depois da proclamação de Otávio como imperador, com o nome de Augusto, no ano de 27 a.C., Mecenas seguiu desempenhando um papel proeminente na corte, mas em um segundo plano com relação a Agripa, que chegou a ser considerado o sucessor de Augusto. Com o tempo, as relações com o imperador se esfriaram por causas difíceis de determinar; quiçá tenha sido o envolvimento de Augusto com a esposa de Mecenas, Terência, ou talvez a intervenção do conselheiro para livrar seu cunhado, Terêncio Varrão Murena, de uma acusação por traição. Ao final, Mecenas se recolheu ao seu palácio do Esquilino, donde se dedicou aos seus livros e artistas. Como não tinha descendência, em seu testamento legou toda a sua fortuna a Augusto, seu protetor e o homem por quem tanto havia feito em vida e ante a posteridade.